SÓ a fé cura! SÓ a fé cura?

 Nestes 7 anos de tratamento contra um câncer, tenho escutado muito esta frase ou suas variantes… “ basta ter fé para se curar!”…  “só a fé cura!”…  “vc precisa ter mais fé para se curar!”…  “se vc tivesse mais fé vc já estaria curada!”… etc…

Acredito sim que a fé é um dos pilares para se conseguir a cura ou o controle dessa doença.

Tenho observado e convivido com muitas pessoas neste mundo oncológico e vejo como a fé (em Deus, Alá, Buda, Oxalá, Universo, ou qualquer outra religião) faz a diferença em qualquer tratamento médico.

O que me incomoda é a palavra “só” nas frases ou o fato de se colocar a fé como único meio de se conseguir sobreviver a esta doença.

Outros alicerces também nos sustentam aqui nesta vida: o físico e o emocional.

Sou profissional da área de saúde e fui ensinada a enxergar um paciente como um ser completo, e não só um dente doendo ou um coração defeituoso. TUDO faz parte daquele indivíduo em sofrimento. E este sofrimento pode ser físico mas também pode estar associado a sofrimento espiritual e/ou emocional.

Tratar uma das frentes ou duas e deixar outra(s) para depois pode remediar uma situação temporariamente. Entretanto sabe-se que se não tratarmos a(s) causa(s) de uma doença, ela tem uma probabilidade grande de retornar.

Quando comecei meu tratamento em 2010 eu “vesti a camisa” do tratamento físico. Fiz tudo que era possível e estava ao alcance da medicina. E tive uma recidiva. Aí consegui enxergar que precisava também cuidar da minha fé, junto do tratamento medico convencional. E também tive uma recidiva. Foi quando paralisei. Vi que eu não estava caminhando para frente, estava retrocedendo… e o que eu podia fazer (além do que eu já estava fazendo) para melhorar e me sentir saudável novamente?

Sempre fui meio avessa a psicoterapia. Lógico, mexer com sentimentos é doído, incomoda. E as experiências em psicoterapia que tive no passado não tinham sido muito boas. Mas eu estava numa encruzilhada. Enxergava as portas, os caminhos, mas não tinha coragem de me mover. Seria hora de desistir? Render-me à doença?

Nunca!

Sabe aquela sensação de ter que ir embora antes da festa acabar? Isso me prende aqui! Não quero perder um minuto desta vida. Enquanto eu puder lutar, estarei aqui.

E lá fui eu para a psicoterapia mais uma vez. Só que desta vez foi com uma perspectiva diferente. Eu realmente queria que aquilo desse certo. E me joguei. E foi a melhor coisa que fiz na vida.

Não foi a atitude mais fácil e nem a menos sofrida…  mas foi um período de imersão em mim mesma e na minha vida. Não dá para viver em modo êxtase ou gratidão eterna o tempo todo. Mas dá para escolher qual momento valorizar MAIS e qual viver exatamente o suficiente para que seja processado dentro de si e depois vire um fato do passado e sem pendências.

Algumas coisas continuaram “fazendo sentido” e guardei bem pertinho de mim. E outras perderam seu lugar em minha vida definitivamente. Ainda estou neste processo de APEGO e DESAPEGO emocional… mas já me sinto muito mais leve. E porque não dizer: mais feliz!?!

Valorizo cada gotinha de medicação ou quimioterapia que recebo e que me ajuda a continuar aqui, agora. Aprecio demais cada oração, intenção ou pensamento positivo que faço ou que fazem por mim (acreditem, agradeço do fundo do meu coração!). E preciso muito do equilíbrio emocional para viver mais leve e identificar e descartar cargas extras emocionais desnecessárias ou tóxicas.

Acredito, sim, pela minha experiência contra o câncer, que estes três fatores em conjunto (e em igual peso), o espiritual, o emocional e o físico deveriam ser colocados “em tratamento” quando uma pessoa adoece.

E fica aqui a explicação da minha cara de paisagem quando escuto algumas frases como aquelas citadas acima.

 

Louise-Liu Vargas de Oliveira, odontopediatra, moro em Curitiba e estou desde 2010 batalhando contra o câncer… Entre os muitos altos e baixos que esta doença traz, ainda é possível viver com brilho nos olhos e alegria!!!!!
Comentários