Scanxiety

Ou em bom português: O Medo Que Me Pelo Ao Fazer Exames De Acompanhamento.

Inglês é realmente uma língua prática, né? Eles juntam duas palavras e tcharam, nasce uma que consegue dizer exatamente aquilo pelo qual pacientes que tiveram câncer passam na época da revisão dos 3/6/12meses…

Acho que em português não daria para simplificar numa palavra só, pois somos mais intensos, sofremos demaaaais, comemoramos demaaaaais e fora saudade, que é a tal palavra onde conseguimos resumir um caminhão de sentimentos, esse medo/pânico/pavor/alívio que fazer esses exames traz, só com umas 23 palavras juntas mesmo… E isso com auxílio da Yoga, Meditação, muuuuuita fé e um pouquinho de remedinho para as mais ansiosas, que nós conseguiríamos demonstrar o que sentimos… Hummm, pensando bem, nem assim. Só passando mesmo para saber.

 

Todo mundo que passou por um diagnóstico de câncer, sabe o quão sofrido foi ouvir pela primeira vez seu nome e a palavra câncer na mesma frase. Depois disso, amigas, ferrou (ia falar outra palavra linda com F, mas mamãe pode ler esse texto e ficar brava comigo…). Nunca mais seremos as mesmas. Passado o tratamento mais pesado, passado aquele momento em que o médico te solta um pouco mais as amarras, você sente até medo de sair para voar para longe. É uma sensação estranha, mas estar sob acompanhamento regular de perto, sob o tratamento, visitando médicos, tendo remédios administrados quase que semanalmente, te trazia uma certa paz. Doido isso, né?

Pois é. A cabeça de um paciente que passou por um câncer não volta muito ao normal não. E quando o médico fala, volte daqui a 3 meses, você se pergunta… Mas e até lá? Parece que vamos reaprender a andar. E vamos. Vamos reaprender muitas coisas. Inclusive a tentar viver sem essa sombra de que a “tal doença” pode voltar…  

Passados 3 meses, quando você já está quase esquecendo pelo que passou (mentira, tá nada! Mas fingimos que estamos!), tome de marcar exames e consultas. Tome de sala de espera, avental bunda-de-fora, jejuns intermináveis, furadas e medo. Muito medo. Cada vez que o técnico/radiologista fala: “vamos ter que repetir a imagem”, seu coração vai a 1000. Boca fica seca. Ar não entra. E não sai. E você já se imagina até no próprio velório. Doi, ne? E tome de mais exames. E eles vêm normais. Também é impossível descrever a alegria de ler: “normal, ausência de malignidade, normotransparentes, sem achados de implantes secundários” e outros mil termos que só querem dizer:  “tá livre dessa p…, caraaaai”. Fogos. Você tem vontade de beijar e abraçar a humanidade e até uns marcianos se eles derem bobeira…

E aí… Chegam os 6 em 6 meses. Mas já? De novo isso tudo? Pegar os envelopes dos últimos exames já faz seus olhos encherem d´água. Você lembra como foi duro e por tudo que você e sua família e amigos passaram e só pensa: “não dou conta disso mais, não!”. Mas vamos lá. Precisamos seguir firmes na remissão. E vem tudo de novo. Você passa a não sorrir como antes (aiiin, tem ressonância amanhã!), a não dar o bom dia com o mesmo entusiasmo de antes (aainn, jejum de 6 horas para aquela ultrassonografia) e ainda tende a passar por metida, pois simplesmente não fala com as pessoas, porque na verdade sua cabeça está é lá no consultório médico já esperando as palavras: “Volte daqui a um ano só, mocinha! Está tudo bem…”

E um ano se passa. E lá vem ela de novo. No meu caso pelo menos, a ansiedade nessa fase de exames não diminuiu nem um tiquinho… E olha que já apelei para mediTação, mediCação, sigo na minha fé, coloquei todos os exames de 6 anos para cá espalhados pelo chão do quarto e vi como os “normais” ganham de lavada dos “bichados”, mas nada. O medo segue aparecendo. Paralisa. E é só uma médica falar: “precisamos prosseguir a investigação”, para você se sentir caindo no abismo de novo. E você cai, sobrevive e volta a subir. E cai, sobrevive e volta a subir. E que assim seja por looooongos anos.

Porque pelo menos enquanto houver esse medo, ainda estou viva para que quando ele passe, eu possa comemorar e muito. E que seja assim para todas nós.

E que nos exames deste mês eu possa celebrar cada vez mais estar viva. Aceito bolo. Obrigada! Ah e aceito mais ainda orações, preces, rezas, emanações positivas.

Para nós.

 

 

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