O dia em que a quimioterapia me deixou careca#PartiuCabelo

Minha relação com cabelo foi sempre de pouco amor e muito ódio. Ele não é (era) nem liso, nem crespo. Nem esticava e nem enrolava. Vivia em cima do muro. E seco ao natural parecia ser ativado por uma espécie de fermento extraterrestre.  Assim como a Times Square, da lua era possível me ver… tô falando sério. Super me identifico com a Elba na década de 80: lembra daquela capa do LP Capim do Vale?

Tão Eu!!!

Quando morava no Gama, uma cidade satélite em Brasília, ele não fazia muita diferença. Eu tinha amigos, vida social (escola, casa e igreja) e até um namoradinho gato cujo momento mais erótico vivido foi andar de mãos dadas na volta de uma procissão hahaha <3.

Entretanto, me mudei pra São Paulo, colocada numa situação muito diferente da que vivia. Morava quase na Av. Paulista, em um apartamento luxuoso. Entrei no meio da quinta série em um colégio de burguês. Aí meus caros, meu cabelo fermentado virou a única coisa que me identificava no colégio, além dos trajes humildes de quem não sabia ainda o que era vaidade. Senti na pele a crueldade das crianças. Me tornei triste, envergonhada, não tinha amigos e só servia pra fazer trabalho dos outros, o que amenizava um pouco a pegação de pé.

E cresci assim. Refém do meu cabelo. Houve uma época em que troquei mesada por crédito no cabeleireiro. Todo sábado estava lá esticando comchapinha. Não entrava em piscina, vivia com atestado pra não fazer educação física e suar a cabeça. Mas mesmo assim ainda tinha algum idiotapra comentar… mas dessa vez o alvo era a chapinha em cabelo ruim. Ai, ai, ai…

Você pediu um carro de 18 anos? Eu não… pedi a recém-descoberta escova japonesa, o alisamento definitivo. Na época custou R$ 800 e melhorou bastante meu relacionamento com meu cabelo. Ninguém mais notava a realidade dos fatos. Mas desde então tenho o compromisso trimestral de retocar a raiz de Elba.

Agora, diante dessa introdução mexicana mas baseada em fatos reais, imagina o que eu senti quando descobri aos 28 que faria quimioterapia??? Foda né… meu cabelo estava lindo na época, mas cortei pra facilitar o banho pós mastectomia. Fiz a primeira, a segunda e a terceira sessão e ele continuou lá, inteirinho e com a raiz crescendo (aff).  Dotô tava quase pirando, questionando até a eficácia do medicamento. Daí localizamos um estudo que diz que quem faz a quimio com  Taxotere tem uma % pequena de chance de escapar da alopécia. Então decidimos chamar de milagre, fiquei entre as sortudas uhuuu.  Mas, mesmo diante de todo o peso que sentia com a doença, o fato de não cair o cabelo fez com que eu ouvisse de muitas pessoas “ahhh você descobriu no começo, foi uma quimio mais fraca”. Hahahahaha TNC viu!

Revivi a época da escola nas clínicas e grupos de apoio: até mesmo os pacientes oncológicos me rejeitavam por não ter passado pela experiência mais marcante, especialmente para as mulheres. Bullying oncológico… pqp que sina! O que é uma ignorância completa. GENTEEEEE NEM TODA QUIMIOTERAPIA FAZ CAIR O CABELO VIU… MEDICINA EVOLUIU…. VAMOS EVOLUIR JUNTO COM NOSSA CABECINHA DE BOSTA. É câncer,é quimioterapia… não tem tumor fácil nem difícil e nem quimio fraca ou forte…  é tudo um caralho de asa que ferra com suas células e traz um monte de efeitos colaterais para o futuro, como intoxicar o coração, por exemplo (acha isso fácil? pega pra vc então).

Mas beleza… tempo passou, cabelo que eu tinha cortado chanel cresceu, comecei a ir na piscina e correr. Não queria mais deixar de fazer nada por causa de cabelo.  No final do ano passado fiz um tal de ombré hair e estava me sentindo gatinha. A autoestima voltou com tudo esse ano depois de muita terapia e estava vivendo uma fase muito legal onde me olhava no espelho e gostava muito do que via. E aí o câncer voltou. A primeira certeza que tive é que dessa vez eu não escaparia da máquina zero. Achei um sadismo do Universo… pô justo agora que estava de bem com o cabelo. Dotô já foi logo avisando: VAI CAIR… É BOM QUE CAIA!

Me ofereceram a chance de usar a touca hipotérmica… mas pesquisei, pesquisei e desisti. Muito trabalho, dor e muito gasto pra pouco benefício (minha opinião). E mais, dessa vez eu queria ter certeza que essa quimio ia chegar em cada célula do meu corpo.  Como teria que ficar com a cabeça congelada durante a sessão me bateu uma angústia… e se… e se… aí desencanei!  Que se foda tudo.

Só decidi que queria que esse momento fosse um alívio e não um sofrimento. Raspar enquanto ele estava lindo ia doer. Queria vê-lo feio, me sentir horrorosa e aí raspar seria um desapego necessário. Foi sem dúvida a melhor coisa que fiz. Dois dias depois da terceira quimio semanal com Taxol ele começou a cair.

 

Ele se joga da cabeça… é uma experiência maluca demais. Sentia como se alguém ficasse puxando o tempo todo. Cabeça dolorida. Tufos pelo chão. Pescoço duro de dormir evitando mexer a cabeça. Ele fica seco, apático, sem vida. Tive a sensação de ouvir ele se desprendendo do couro. Fiquei triste, chorei, chorei e chorei mais um pouco.  Ouvi um milhão novecentas e setenta vezes que ele cresce e segurei para não responder…  pq pode crer, fica a dica, irrita um pouco… faz vc se sentir fútil por sofrer por isso. Sei que as pessoas não falam por mal, mas eu só queria ser ouvida e compreendida…. só isso. Eu sei que cresce! E não me sinto nem um pouco fútil pela tristeza.  Porra, ia ficar careca não por estilo, mas por doença… me deixa sofrer em paz saco!

Bom, no meu caso o processo todo demorou uma semana exatamente. Estava insuportável a queda. Aí  num domingo lavei o cabelo pela última veze deixei ele quase todo no box, parecia que tava podre… a água caía e escorria tufos pelo meu corpo…. agonia final e a decisão: é hoje.. não aguento mais!

 

Escalei como carrasco meu cunhado, amigo, irmão que eu amo com toda minha alma. Veio minha amiga Mi também, que me acompanha há 14 anos em todos os bons e maus momentos. Estava cercada pelo amor da minhamãe, do meu pai, do meu irmão, da minha sobrinha, minha irmã, minhaamiga irmã, meu cunhado e meu cachorro. Não faltava nada. Tinha a força que precisava.  Segurei a mão da Mi e da minha irmã e o Acácio fez o serviço.

Fechei os olhos durante todo o tempo… não queria ver o cabelo caindo. Pensei  em tudo isso que contei acima…. minha guerra santa com meu cabelo… como fui boba em deixar de fazer tanta coisa por causa dele e da opinião dos outros.

O pranto só veio quando passei a mão. E foi um choro dolorido… daqueles que dói tanto o coração que parece que vai parar de bater. Nada identifica mais um paciente com câncer do que essa questão do “careca com lenço”… não seja hipócrita de me dizer o contrário… É SIM! Então só consegui levantar a cabeça e dizer:  Estou com cara de doente? Todos negaram e eu  tive medo de me ver… coloquei  um lenço como burca e fui até o banheiro tomar banho. Queria um tempo pra colocar as ideias no lugar. E foi aí que aconteceu a mágica. Me olhei no espelho careca pela primeira vez e o choro acabou: “PUTZ EU ESTOU BONITA”.

E foi assim minha história. Tomei um banho delicioso com a água batendo na careca. Outras amigas chegaram pra fazer farra. Brincamos de tutorial de amarração de lenço. Fizemos fotos e planos para a minha careca. E no final desse dia sentia como se depois de 32 anos de guerra eu finalmente fizesse as pazes com meu cabelo. Alívio Total.  Um cabelo novo e menos machucado tem tudo a ver com a mulher que me tornei. E pra apagar o passado, nada como RECOMEÇAR. #partiuvidanova

 

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