O Amor em tempos de câncer

     É amiga, amar é preciso. Mesmo estando doente, mesmo tendo passado ou passando pelo diagnóstico do câncer, ter alguém sempre faz bem. E não estou aqui pregando amor eterno, casamento e planos de “E viveram felizes para sempre”, mas sim o fato de ter uma pessoa ao seu lado, nem que seja só para fazer um sexo gostoso, dar uns beijinhos e/ou um cafuné naqueles dias mais chuvosos…

     Só que se arrumar um peguete, ficante, namorado ou marido (ou manter qualquer tipo de relacionamento) antes de ter câncer já era puxado, imagina depois que você recebeu a fatídica notícia: “Você está com câncer, fará um tratamento que envolverá arrancar um pedaço de você (tá, não foram com essas palavras e nem são todos os casos, mas estou generalizando para as meninas que passam/passaram pelo câncer de mama, já que esse tipo é o mais comum…), quimio (e com isso ficar careca e engordar/emagrecer) e talvez ainda ser fritada na radio… Dar beijo na boca? Oi? Precisa? Transar (ou fazer amor, sexo, como você quiser se referir!)??? Nem em sonho. Só com o cara dos 50 Tons de Cinza te prometendo a cura.

     Enfim, passado o susto inicial, você tenta seguir com a vida dentro da mais absoluta normalidade assim que possível. Mas como? Se você tem um relacionamento fixo, como estar disposta a fazer sexo, se tudo o que você quer é um balde para vomitar? Como ser carinhosa, se seu corpo só pede cama… E é para dormir? Complicado, né?
Óbvio que sabemos que relacionamentos envolvem coisas muito além de beijos e transar, mas como é um tema que parece não fazer parte da vida do paciente oncológico, tudo vira um enorme tabu e as pessoas nem comentam como isso afeta sua qualidade de vida. Sexualidade faz parte de viver. E sexo faz parte de amar. Mas amar o outro inclui você se amar antes. Mas como se amar com tantas transformações ocorrendo no seu corpo?

     Em tempos onde todas colocam silicone, perdemos um seio… Ganhamos uma cicatriz enorme num local tão ligado à feminilidade… Poinnn… Baque 1. Como se achar sexy faltando um pedaço? Ahhh, mas sou muito mais que um peito. Sim. Somos todas. Massss e vai explicar isso lá para dentro do seu cérebro. Demora um tico. Segue o baque.
Ficar careca. Sabe aquela fortuna que gastamos em xampus, cremes, escovas…? Sabe mexer no cabelo para conquistar o gatinho? Sabe jogar as madeixas para um lado e para o outro para seduzir? Que fios? Esfrego a careca? Ahhh, cabelo cresce. Mas demora. Até lá… Baque 2.

Quimio, corticoide e seus amigos injetáveis: uma fadiga monstra. Incha. Engorda. Como dar um beijo de língua com aquele gosto de “pau do metrô” eterno? Como se esforçar na cama, se só de pensar em tomar banho, você se sente a finalista dos 10000 metros (com barreiras! Sei nem se existe, mas era assim que me sentia…). Cansaço mortal + edema bizarro e cara de Trakinas: baque 3.

E você segue tentando manter a vida dentro do normal… Aí vem a hormonioterapia… Ou melhor, o Adeus-Hormônio-TERAPIA. Tamoxifeno para algumas, Zoladex + Anastrozol/Letrozol para outras… Minha amiga… Prepara. Menopausa para você. Baque 4,5 e 6. Juntos! Libido? Hein? Sexo? Só se for para responder nos cadastros da vida… ( ) Feminino… Começam as orações para o gatcheeenho nunca mais te procurar na vida. Ele vai arrumar uma amante? Aceito e dou até dicas para ela de onde ele mais gosta de ser tocado.
(P.S. Estou escrevendo como se o outro fosse do sexo masculino, porque escrevo na primeira pessoa e sou hetero, mas obviamente se aplica às meninas que gostam de meninas…)

Ahhh achou pouco? Já considera o celibato como saída? Piora. Vem a secura. Mas não é aquela securinha do tipo “cara manda mal”, é secura nível deserto do Saara, Atacama e Kalahari juntos. Sertão do nordeste ainda é mais“hidratado” que a gente nessa fase…

     Enfim, passados todos esses (D)efeitos colaterais, com o fim do tratamento mais pesado, como voltar a ter uma vida sexual normal depois…?

     Primeiro de tudo. Converse muito com seu parceiro. Explique o momento pelo qual está passando. E esse momento VAI PASSAR. Ele não entende? Tchau. Cara, se me livrei de um peito, não vou me livrar de um carinha? Ele que sairá perdendo. Não tinha uma mulher com os dois peitos ao lado, mas tinha ganhado de tabela uma mulher muito forte ao lado. Sem mimimi. Quem passou por um câncer nunca mais vai se estressar em fuxicar Whatsapp, perguntar quem está ligando ou implicar com o futebol/chopp com os amigos… Vai querer ser feliz e viver. Sem estresse bobo. Perdeu ele. Sem recalques. Sem dor de cotovelo.

     Em segundo lugar, procure ajuda. Em grupos de apoio, com seus médicos, com terapia. Se aceite. Ficou uma cicatriz? Faz tatuagem em cima, aplica cremes, acostume-se. Não é simples. Não é fácil. Mas com o tempo ela vira a prova de que você é F… para caraaai. Olhe ela com esse olhar, que você vai se achar. Não consegue? Peça ajuda. Segue seca? KY, Vagidrat, óleo minreal ou de coco… E pede para o “amigão” caprichar mais. Você merece. Não está conseguindo nem assim. Trava? Vibrador nela? Ohhhhh, meu Deussss… É pecado. Não estamos discutindo religião, mas sim necessidades fisiológicas. Você quer? Usa. Não acha legal? Respeite-se e peça orientações. Existe fisioterapia e alguns aparelhinhos para isso…

Depois disso tudo, que a vida volte ao normal, que se você já tinha um cara maneiro ao seu lado e ele permaneceu com você, que vocês sejam muito felizes. Se o mané com quem você estava deu o fora, agradeça. Cumpriu-se aquela parte da oração que dizia “E livrai-nos de todos os males…”. E que venha um cara ainda mais legal do que você jamais havia sonhado. Ele vem, acredite.

     Ou se não vier, use e abuse de quem quiser e seja feliz sozinha. O câncer e tudo que ele envolve serve para nos mostrar que somos fortes o bastante para encarar tudo o que vier e mais um pouco. Sejamos felizes e leves. Com amor. E sexo. Se e quando estiver a fim.

 

 

 

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