Como falar inglês me ajudou a superar um câncer no meio do caminho

Você pode achar esse título estranho e até meio sensacionalista, mas eu garanto: falar inglês me ajudou muito no tratamento oncológico.

-Mas, como assim, Lud?

Antes acho bom dizer que, mesmo que você não fale inglês, você deve continuar lendo só pra saber como a língua do Tio Sam te ajuda. Se você fala inglês mas ainda não usou a língua yankee como ferramenta de apoio, vou te contar aqui como eu fiz.

Era final de 2011 e depois de alguns meses com uma afta estranha na minha língua eu descobri que estava com câncer. Mas, ao contrário da maioria, eu não vivi aquela fase do diagnóstico pré-cirurgia. Eu fui anestesiada não sabendo o que eu tinha e acordei com:

-Oi, você tava com câncer mas já tiramos, tá?

Claro, não foi tão simples e direto assim Um dia eu conto mais detalhes dessa história. O que interessa é que lá estava eu, aos 29 anos recebendo uma lambada das minha células: carcinoma epidermóide de língua, bem diferenciado em estágio I.

Vamos entender bem o contexto. 29 anos. Nunca fumei. Não bebo. Não uso nenhuma droga (exceto carboidratos). Sou mulher. Exames em dia e todos com índices normais. Bem nutrida com nenhuma deficiência imunológica.

Ou seja: ZERO fator de risco para ter esse diagnóstico.

E isso me deixava num abismo imenso. Depois de receber o diagnóstico eu pensei: FERROU! Preciso descobrir se pessoas com as mesmas características que eu estão VIVAS hoje.

CADÊ “AS PESSOA”?

Perguntei para o meu médico quantas meninas jovens que não fumam e não bebem ele tinha encontrado naquele consultório. O diálogo foi mais ou menos esse (lógico que, semanas depois da cirurgia).

  • Mas doutor, quantas meninas jovens em condições parecidas já passaram por aqui?
  • Muitas.
  • Ok, mas elas não fumavam?
  • Não.
  • E bebiam?
  • Também não.
  • Ok, mas quero saber quantas estão vivas hoje?
  • Muitas.
  • Depois de 5 anos?
  • Muitas.

Foi muito difícil extrair qualquer informação quantitativa, e claro, eu esperava que ele falasse nomes, como um adulto contando uma fábula para uma criança que acredita em conto de fadas. Tudo que eu queria naquele momento era acreditar em fadas, duendes, cristais, saci e o escambau. Eu queria que ele me dissesse: “A Mariazinha, do Rio de Janeiro, tem 33 anos, operou com 28 anos e está muito bem, acabou de voltar da Riviera Francesa”.

Claro que ele não disse isso, afinal não existe coluna social oncológica.

E eu, na sala de espera do AC Camargo olhava ao redor e eram poucos jovens. E esses poucos, não necessariamente todos com carcinoma epitelial de língua. Eu só pensava que precisava, desesperadamente, conhecer alguma paciente que tivesse passado a marca dos cinco anos.

 

Comecei a procurar no Google as palavras-chave mais óbvias:

 

Câncer de língua sobrevivente

Câncer de língua curado

Câncer de língua experiência

Câncer de língua blog

Tive câncer de língua

 

Entre outros mil termos. Nesse momento descobri que além desse tipo de câncer ser muito raro em mulheres, mais raro ainda eram aquelas mulheres dispostas a compartilhar sua experiência sobre o assunto. A internet estava ali, dominada por blogs de câncer de mama e eu estava solitária com meu câncer ultraprivê. Parecia que só eu tinha sido sorteada no mundo com essa meleca antes dos 30 anos. A paranóia batia cada vez mais forte. Eu me questionava que talvez esses blogs, posts e artigos compartilhando essas histórias poderiam não estar na Internet porque as pessoas tinham morrido (!).

Respirei, parei e pensei no meu trabalho, lembrando o que eu sempre dizia: em língua portuguesa o conteúdo da Internet é um balde no oceano se comparado a outros idiomas.

Tchanam! Comecei a aproveitar meus muitos anos de CCAA e CCBEU para pesquisar por palavras-chave em inglês e trabalhei com duas inicialmente:

Oral Squamous Cell Carcinoma e Squamous Cell Carcinoma of Tongue.

Um novo mundo se abriu e depois de muitos artigos científicos achei o que eu procurava: sites, blogs e artigos com experiências sobre a doença. Decerto muitas me apavoraram. Esbarrei em histórias tristes, de pessoas que tinham perdido suas vidas, de recorrências e o que me dava mais pavor: blogs e sites sem atualizações por anos.

Virei uma verdadeira stalker: eu lia os artigos em inglês e ia no Facebook checar se a pessoa estava viva. Parece meio ridículo, mas imagine que eu estava na semana da cirurgia, me recuperando, com uma sonda enfiada no meio do meu nariz (não desejo nem para a pior pessoa do mundo), sem poder FALAR e COMER. Ou seja, eu tinha direito de ser stalker de outros sobreviventes.

A maior felicidade era que as pessoas respondiam. Ou seja, elas estavam VIVAS, mas principalmente vivendo.

A resposta que mais gostei de receber foi uma gringa malcriada que me disse em outras palavras um grande “I don’t give a fuck”. Ou seja, ela estava viva, em outra, literalmente cagando e andando para o diagnóstico de câncer.

Era página virada.

Outras pessoas foram mega gentis e mantenho contato até hoje, afiando meu vocabulário além do “the book is on the table”.

De todas as descobertas, a melhor ferramenta que encontrei para o meu caso foi o site da Oral Cancer Foundation (http://oralcancerfoundation.org/), criada pelo americano Brian Hill, que também é um sobrevivente, de mais de um tipo de câncer, aliás. Infelizmente não temos no Brasil nada tão completo para troca entre pacientes de câncer de cabeça e pescoço (o nome da especialidade que trata o tipo de câncer que tive), mas quem fala inglês pode utilizar o site de maneira bastante eficiente. Além de artigos confiáveis e completos, a OCF tem um fórum de pacientes que me deu muita paz de espírito nos primeiros meses. Eu fiquei viciada no fórum pois era uma grande rede de empatia e de apoio mútuo. E foi lá que achei muitos jovens, de idade e perfil similar ao meu que compartilhavam suas histórias, seus check-ins de saúde e seus medos de recorrências, dos exames, de tudo que envolve o mundinho oncológico. Existem depoimentos por lá encorajadores e pessoas que, numa situação de diagnóstico muito pior estão ali, sempre dando força uma para as outras. Eu não sei o que seria de mim se eu não tivesse encontrado esse fórum global de pessoas em situação similar a que eu estava. Fui muito ativa durante os primeiros meses, e claro, depois de um tempo a vida volta ao normal e você esquece. Mas sempre que eu posso passo por lá, mesmo após minha remissão de cinco anos completa. Seja para dar uma palavra para quem está ingressando agora no mundo oncológico, seja pra dizer para o pessoal que TÔ VIVONA, GENTE.

Um dos meus posts recentes fiz no dia exato em que completei minha marca de cinco anos.

Hi guys!
It’s been a while but I’m just checking in to say 5 years ago I was the girl freaking out and being helped on this forum. Now I’ve completed my remission and I’m cancer free. Happy to share this and to tell young patients not to lose hope.

I’ve made LOTs of stuff after the diagnosis.

Love you all,
greetings from Brazil.
_________________________
December, 2011 – T1N0M0 SSC Oral Tongue sugery (Dec 07, 2011). Partial glossectomy, primary closure. Selective neck dissection, all 57 nodes free. 29 at diagnosis, no risk factors at all. No smoking, drinking and HPV negative. Can you explain? I can’t.


Esse fórum só reforça a minha impressão de que, todos nós, pacientes e ex-pacientes oncológicos precisamos de alguma forma, compartilhar nossas experiências positivas com essa doença chata.

 

Pois tudo que um paciente novato mais quer é:

  1. Achar um caso parecido com o dele
  2. Saber que essa pessoa está viva
  3. E mandar um alô pra essa pessoa pra ter certeza de tudo isso

E nem preciso dizer, por experiência própria que ainda há muito o que fazer para desmistificar o câncer na internet brasileira.

Em português mesmo! Nem precisa falar inglês, apesar de eu recomendar fortemente que você expanda esse horizonte.

Mas se você não quiser aprender a língua do Tio Sam, pelo menos aprende a cantar o refrão de Stayin’ Alive dos Bee Gees, porque é isso que importa.

 

Estar vivo, a cidade mexendo e todo mundo dançando.

https://www.youtube.com/watch?v=I_izvAbhExY

 

Por Ludmilla Rossi

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